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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Capítulo 8


Uma coluna de fumaça se destacava no céu estrelado de Kosciuzko, escondendo parcialmente o brilho de duas das três luas que iluminavam a superfície desértica daquele planeta. Abaixo dessa coluna, podia se ver uma velha cabana pegando fogo e, a sua volta, três cadeiras de praias molambentas, prontas para ranger ao mínimo contato físico, ocupadas por três jovens que se largavam sobre elas. Poncho já estava roncando enquanto dormia abraçado ao seu galão de gasolina, Rurko falava incessantemente sobre guloseimas que sua mãe fazia e que seria ótimo acompanhamentos para esse cenário, e George observava as chamas que dançavam compassadamente a sua frente enquanto deixava um pedaço de chocolate derreter no canto da boa.
De repente Poncho levantou da cadeira, derrubando o galão, depois sacudindo a poeira:
- Vamos!
- Vamos! - respondeu Rurko.
- Vamos... Onde? – resmungou George enquanto engolia seu chocolate.
- Emboooora, caaaaaaaara! Já vimos a parada toda queimar, vamos!
- Três vezes ainda.
- Ah, é a vida. Vamos, caaara?
- Na última você ainda colocou mais gasolina, só porque o Rurko viu que tinha sobrado chocolate lá dentro.
- Eu sou louco, cara. Acontece. Vamos?
- E sabe de uma coisa? Esse chocolate é horrível mesmo.
- Ele nunca foi bom. Vamos?
- Tudo bem... Vamos. – suspirou George – Como a gente sai daqui, Rurko?
- Se quisermos mesmo ir embora temos de pegar a Valkyria de volta.
- Ééé - dizem George e Poncho ao mesmo tempo - onde você a deixou?
- Não deixei em lugar nenhum, ela foi confiscada. A gente não está aqui a passeio, isso é uma prisão. Agora temos de ir pra Wallaby, falar com o comissário de Kosciuzko
- Pra que isso? - Perguntou George.
-É um teste, pra ver se nós não somos mais semi-rebeldes.
Com a decisão de partir tomada, o grupo foi em direção à estação de carroças-magnéticas novamente, de onde eles rumariam para cidade de Wallaby, que ficava a poucas centenas de quilômetros dali.
Depois de alguma fila e uns trocados mais pobres, os três estavam dentro da carroça indo ao seu destino. Porém, tudo que se podia ouvir durante a viagem, eram interjeições de Poncho devido ao quão legal eram aquelas carroças, e como elas poderiam mudar o mundo.
- O que tem de incrível, cara? Você não veio usando uma delas? – Perguntou Rurko.
- Claro que não! Na noite que eu fui embora eu saí por aí, pensando num lugar bacanoso onde eu poderia começar minha plantação. Então, perto de onde estavam acontecendo os shows tinha um maluco falando de um lugar incrível e místico perto do mar, onde tudo poderia virar realidade.
- E você acreditou nessa bobeira? – Disse George ceticamente.
- Claro que não, cara! Ele era pirado! Só que daí ele virou pra mim e falou “Vamos, Banzé!”. Daí eu fui, porque achei o apelido maneiroso!
Depois de mais ou menos uma hora de insanidades ditas por Poncho, eles já estavam passando por cima da ponte dos "Heróis da Grande Caça Avassaladora dos Coelhos", mas que todo mundo chamava de ponte da carroça, já que era por lá que passavam os trilhos das carroças. Lá embaixo se via o canal, que separava a ilha de Wallaby do continente. A ilha ficava na baía da corrente alternada, lugar onde os primeiros cosmonautas aterrissaram, a centenas de anos atrás, quando ninguém tinha naves próprias e todos tinham de andar de ônibus espacial. Muito se discutiu na época se deveriam chamar a baía de corrente alternada (AC, no dialeto de Kosciuzko) ou corrente contínua (DC). No final, venceu alternada, pois o principal defensor de contínua levou um raio (ou pelo menos dizem que foi um raio).
Mas esses dias de pioneiros e ônibus cruzando o céu haviam acabado, e agora o que Rurko, George e Poncho viam eram os surfistas e as garotas de micro-biquini andando na areia, aproveitando suas vidas endinheiradas no mais novo destino turístico.
 Wallaby se destoava do padrão “sujo-bagunça-raio-da-morte-problemas” que eles haviam passado até agora. O centro da cidade era uma grande praça, com uma bela fonte no centro jogando água em alta-pressão pra o alto, fazendo com que você sinta seu rosto ligeiramente úmido em qualquer ponto da cidade, em volta da praça, pequenos prédios sistematicamente dispostos numa forma circular, o que formavam grandes anéis de prédios e ruas quando vistos por cima, anéis esses que acabavam nas praias cheias de turistas chapeludos que adoravam mostrar o quanto eram certinhos. Porém a grande referência da cidade era o prédio da Comissão Anti-Rebeldia, que se destacava por ser o maior prédio de lá. A Comissão era o órgão maior de Kosciuzko, era sua função gerenciar os núcleos de rebeldes espalhados pelo planeta, comandar os centros de reabilitação, e, o que mais interessava no momento, decidia quem entrava e saía no planeta.
Pouco a pouco, o trio foi sentindo o desacelerar da carroça que anunciava que eles haviam chegado a seu destino. Ao desembarcarem, se depararam com uma estação em forma de concha acústica que fazia vista para cidade, cenário paradisíaco pra quem havia se acostumado com cabana em chamas ou semi-rebeldes suando suas almas num festival de rock. Porém, a mendiguice de Poncho o fez notar um ponto de sujeira no meio de tanta beleza, um ponto sujo e conhecido. Era seu antigo professor de inglês, Rafayol.
Antes da Virada Verde, Rafayol dava aulas no antigo colégio de Ponho e George, até ser mandado embora por tocar rock & roll para seus alunos. Segundo relatos nunca confirmados, mas muito comentados, as exatas palavras do coordenador da escola no momento de sua demissão foram, “Música desperta coisas terríveis nos alunos! Você quer o que, Rafayol? Que eles sejam criativos e pensantes? Não é isso que precisamos dos jovens!”.
Com a debandada para o espaço, Rafayol contrariou sua esposa e foi lecionar na universidade mais psicofunkdélica (como os próprios estudantes costumavam se referir a ela) do setor oeste da galáxia, a famosa Universidade do Rock.

Porém, como tudo que era público no universo, a universidade estava em greve. Os professores reclamavam da falta de estrutura, como a falta de drogas ilícitas para os alunos de Alucinações Psicodélicas I, ou a quantidade escassa de instrumentos para serem queimados ou quebrados pelos frequentadores de “Física Rockstar”.

Ao se aproximarem, perceberam que o velho professor estava tocando suas músicas por alguns trocados. Trocados bem gordos vindo daqueles turistas ricaços.

- E aí, Rafayol! – Cumprimentou Poncho, jogando uma moeda.
- Fala rapaziada. Que vocês tão fazendo aqui?
- A gente veio recuperar a nave do Rurkolino – Respondeu George, recuperando a moeda que Poncho havia jogado e mais algumas outras, caso eles precisassem.
- WOOW! Então vieram para o grande teste?
- Teste? Tipo uma grande de lutas de espadas de madeira? Ou um concurso de conhecimento élfico? – Perguntou Rurko, usando todas as onomatopeias que lhe fosse necessário para se expressar.
- Hmm, não. É só uma série de perguntas pra ver se vocês não são mais semi-rebeldes. Perguntas moçadas, sobre Rock, física e previdência privada. Eu passei por essa fase uma época, e fiz uma música.
- Toca ela pra gente - disse George, com um leve ânimo.
- Não, ficou uma bosta - disse Rafayol, com olhinhos de quem queria que pedisse de novo.
- Toca logo - disse Rurko, que nem conhecia o professor, mas ficou impaciente, talvez pela música, talvez pela fome.

Rafayol começou a tocar e depois já emendou "Cara legal", uma das suas melhores músicas. A concha acústica se encheu com a canção e as pessoas começaram a se aproximar. Rafayol começou a se animar, e foi emendando mais músicas. O trio começou a ficar de saco cheio daquela gente toda e foi mais ou menos quando Poncho estava querendo morrer que Rurko disse:
- Vamos sair logo daqui, já tá bom de música.
Poncho e George agradeceram mentalmente e os três partiram rumo a uma barraquinha de pipoca.
- A gente come pipoca. E depois? - disse Poncho.
- Depois a gente vai ao prédio da Comissão Anti-Rebeldia. De volta a Valkyria, de volta ao espaço. - respondeu Rurko, já imaginando como seria bom usar um banheiro próprio depois de tanto tempo usando o da cabana do acampamento ou, na plantação de Poncho, o matinho mesmo.
Depois de Rurko ter comido praticamente toda pipoca do carrinho, e Poncho e George terem de arrasta-lo por três ruas pra que não acabasse estacionando em algum outro carrinho de comida, eles haviam chegado a frente do prédio da Comissão, onde o teste os aguardava.

domingo, 11 de março de 2012

Capítulo 7

Já fazia algumas semanas que nada acontecia. O tédio, o calor e a absurda falta do que fazer corrompia a mente dos inocentes viajantes.
George se prendeu voluntariamente a uma rotina religiosamente calculada para que seu cérebro só começasse a funcionar depois das 8 horas da noite. Poncho se isolou numa encosta perto do mar e, de acordo com as últimas notícias que haviam recebido dele, passava o tempo todo entre olhar o mar e cuidar da sua plantação de cacau. Rurko se perdia nas suas idéias doidas, atingindo altos níveis de perícia em coisas como origami, malabares e cozimento de variados tipos de massa.
Ele acordou com o vento frio que veio antes da chuva, coisa muito rara naquele deserto, o que foi um alívio para aqueles dias secos que vinham passando em Kosciuzko
O vento o fez despertar para o que estava acontecendo e como a situação sugava sua força vital. O festival de bandas já havia acabado há muito tempo e foi-se com ele a falsa imagem de animação daquele lugar.
Com um chute na cama de cima do beliche, ele acordou George, que gritou assustado:
- O quê? – Em um tom que, com posteriores análises de Cogudex, pôde ser analisado como sendo 10% voz, 10% calor e 80% sono.
- A gente tem que ir embora... nós estamos nos acomodando com esse tédio todo, mais um pouco e vamos atrofiar nossos cérebros! – Disse Rurko animadinho.
- O quê?
- O seu já está atrofiando, vou buscar café.
E no mesmo segundo, George já havia dormido de novo.
Depois do café que Rurko o fez tomar com muito esforço, porém, ele ficou se perguntando porque seu cérebro havia sido despertado antes das 8.
- Aaaah, cara, não sei... Vamos ver o que o Poncho acha disso tudo. – Disse George já acomodado com sua acomodação.
- Ótima ideia! Faz tempo que não vemos o Poncho.
Os dois partiram em direção à estação de carroça-magnética, onde, depois de meia hora de fila, compraram duas passagens para a costa.
A carroça da linha “Midnight Oil” chegou atrasada, pois havia tido problemas nos imãs que a mantinham flutuando sobre os trilhos. As placas de “Men At Work” ficaram pela linha até as 11 horas da noite.
Só George aproveitou a viagem, olhando a bela paisagem desértica iluminada pelas 3 luas de Kosciuzko, seguida pela imensidão de pastos e arbustos, conforme se aproximavam da costa, enquanto Rurko parecia perdido em pensamentos. As 3 luas do planeta intrigavam George, pois só agora, viajando pelo espaço, ele havia percebido como as coisas ficavam mais bonitas quando havia mais luas ou mais sóis no céu. Devia ser pelo fato de tudo ficar mais bem iluminado, ou pelo maior número de sombras se eram formadas.
Além disso, as civilizações com mais astros desenvolviam a matemática muito mais rapidamente, pois a astronômica ficava deveras mais interessante.
Já era cedo quando a carroça magnética parou, e um dos sóis havia nascido. Os dois viajantes saíram da estação, cada um com um saquinho de pipocas doce, o que fizera surgir em Rurko uma certa culpa, pois sua mãe o fez prometer que sempre tomaria café da manhã saudável.
Poncho morava em um casebre no alto da encosta, rodeado de eucaliptos, de onde se podia ver o que parecia ser sua roça de cacau lá embaixo. No momento em que chegaram, um segundo sol estava nascendo para realinhar as órbitas dos planetas. Rurko ficou levemente embasbacado com a cena, e teve que ser sacudido por George para que voltasse à realidade.
No fim da estradinha que levava à encosta havia algo que se parecia muito com um mendigo sentado em uma pedra, filosofando. De repente, a criatura virou e gritou:
- HAO!
Nesse momento, eles perceberam que o mendigo era ninguém mais, ninguém menos, que Poncho, e a primeira coisa que George perguntou foi:
- Faz quanto tempo que você não corta o cabelo?
- A pergunta certa seria “Faz quanto tempo que você não toma banho?”. – Disse Poncho com um ar de quem não falava há meses – Rurkolino, eu fiz chocolate!
- Haha, deve ter ficado uma droga. Cadê?
O chocolate estava horrível.
- A minha vaca morreu e eu fiquei sem leite, além disso, o clima é horrível para plantar cacau, então eu fui plantar abacaxi, mas a minha plantação pegou fogo! Agora eu vivo da venda de estrume.
“Isso explica a troca das árvores pelos arbustos rasteiros”, pensou George, porém, uma pergunta mais pertinente e importante foi o que saiu em voz alta:
- De que bicho você vende o estrume, se a vaca morreu?
- Bicho nenhum! – Respondeu Poncho com um sorriso melindroso – Quando é que a gente vai embora?
- Dá um tempo! – Respondeu Rurko de boca cheia e com a bacia de chocolates nas mãos. – A gente tem que buscar a Valkiria ainda.
- Ok... – Disse George, triste ao se lembrar que a nave não era a única coisa que eles tinham que buscar daquele planeta.
À noite, à luz do lampião de LED, Poncho sossegou George ao dizer que eles voltariam para buscar Alice. Depois disso, as rugas na testa de George sumiram e até o chocolate passou a ter um gosto melhor.
No dia seguinte, acordaram depois da hora do almoço, a não ser Rurko, que ficou a noite toda pilhado no açúcar do chocolate.
George, já livre de sua rotina, comentou aliviado que Poncho parecia melhor de sua loucura, já que ele não queria mais se isolar e viu que o chocolate foi uma má ideia. Rurko concordou e atentou para o fato de que ele até tinha tomado um banho. Uma noite com os ares da companhia humana realmente fez muito bem ao companheiro.
Nesse momento, Poncho entrou em seu casebre com um galão de gasolina.
- Agora é o momento épico, meus caros, de botar fogo, só pra ver queimar!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Capitulo 6

Rurko e George lutavam para avançar dentro daquela multidão de pernas e braços dançantes embalados pelo som do show que ecoavam por todos os cantos daquele planeta. Até que em meio aquela confusão George avistou Zangado, um velho amigo seu.

- O Poncho é um cara estranho... – disse Zangado, e antes que todos percebem,  já mudando de assunto – Hoje eu tropecei no meu próprio pé, caí apoiando a mão em algo macio, era cocô de cachorro, e depois  o cachorro maldito mijou em mim. Então não me venha falar de Poncho.
- Você viu ele? – Retrucou George em tom que pudesse ser ouvido em meio aquela confusão.
- Eu vi essa merda de show do Pena Vinícius & Carlinhos de Morares e nada do Jasão  & os Argonautas... Carlinhos de Moraes é uma droga, CHUPA SOCIEDADE!

Ele sempre se exaltava com os menores assuntos, mas George tinha maiores preocupações no momento para dar atenção à elas.

- Poncho. Você o viu?
- Ele tá ali atrás. – Rosnou Zangado, apontando para uma casinha de madeira onde se vendiam cachorros quentes.
- Uhuul! Cachorros quentes! Comer! – Gritou Rurko, que agora parecia mais animado em comer do que encontrar seu velho amigo.

George foi para trás da barraca para tentar encontrar Poncho, enquanto Rurko estava comendo cachorros quentes. Ao dar a volta na casinha, George encontrou uma forma que parecia encarar algo.
Poncho estava sentado olhando para uma árvore de cacau, ele parecia maravilhado e abismado, e somente desviou sua atenção ao perceber George se aproximando.

- Vamos plantar cacau. Ele nasce aqui naturalmente, e fazer chocolate, achocolatado e tudo mais, e vamos plantar na encosta e todos os dias vamos ver o poente no oceano e os eucaliptos, cara! E o Rurko também, alquimia dos chocolates e toda essa parada. Construir uma casa de troncos e botar fogo nas coisas, só pra ver queimar.
- Rurko! O Poncho não tá bem, mas leva-lo logo daqui.
- Rurkolino! – Gritou Poncho, enquanto Rurko aparecia carregando dois cachorros quentes, e como se podia notar, com outro enfiado em sua boca. – Cacau!
- Cara, que legal! Há quanto tempo eu não via isso!

Nesse momento George começou a se preocupar, ele já vira essas reações antes e ficou pensando quanto tempo ia demorar até que começassem a projetar um trebuchet, uma casa na árvore, ou qualquer outra ideia idiota.
A melhor dessas ideias havia sido produzir hidromel, uma ótima bebida, se misturado com suco de pera na correta proporção. Mas e agora, ia ser chocolate o verão inteiro?
Quando George voltou à conversa, Rurko estava falando:

-... Sim! Então vamos fazer uma cota de malha de anéis de lata. Vai ser legal.

George sabia onde aquilo ia dar então ele resolveu voltar aonde Zangado estava, onde ficou discutindo o novo álbum do Jasão & os Argonautas, havia boatos de que Jasão iria morrer e ressuscitar no palco. Ser um semideus tinha suas vantagens.
O céu começava a ficar estrelado, e eles não haviam dormido desde que chegaram a Kosciuszko. Dois dias de shows ininterruptos, aquilo acabou com a energia deles. Zangado os levou ao acampamento e os mostrou a cabana/dormitório.
Beliches, armários, banheiro e, surpreendentemente, uma lareira acessa queimando eucalipto. O sono foi longo para os três, mas cada um se perdia em pensamentos muito diferentes. Poncho, já imaginando sua encosta com cacau e silêncio. Rurko, tentando digerir os quatro cachorros quentes que estavam dando trabalho para seu estomago e sua cabeça. E George, sonhando com aquela baterista com bochechas fofinhas. 

Será que eles se encontrariam de novo? George só conseguia se preocupar com isso.



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Capítulo 5

Era escuridão, e então um ponto de luz que se abriu em uma flor em tons de roxo. Aos poucos essa flor foi se diluindo e se transformando na galáxia. Então a grande galáxia se torna um céu cheio de estrelas e a visão vai descendo até se poder ver a superfície do planeta.
Era uma região desértica, e no meio daquela “caatinga”, com o solo rachado e cactos esparsos, havia em destaque um mega palco onde o Foo Fighters se apresentando, isso ficava bem claro pelo enorme letreiro de neon com um “Foo” dourado separado do “Fighters” por um contorno de sol brilhante. Porém já não existe mais banda, palco, ou até mesmo planeta, apenas o céu completamente negro, onde o processo e reverteu. Novamente, estrelas, galáxia, cores em tons de roxo, e então a flor se fechando num ponto sobrando somente a escuridão.
Cócegas. Se espalhando a partir do dedão até tomar conta de todo corpo.
- HAHAHAHAHA... Que porra é essa?! – Exclamou George, num misto de surpresa, dor e risadas tentando ser suprimidas.
- É o míssil da polícia; “Arma de Efeito Psicodélico”. Acabei de checar na Cogudex. – Tentou explicar Rurko.
- Você sabe muito bem que eu também funciono em computadores de mão. Mesmo com a nave presa no depósito da polícia. – Completou Cogudex, piscando freneticamente sua pequena tela e com uma voz polifônica.
- E esse moleque aí? – Perguntou George enquanto se levantava, apontando para o que parecia ser Poncho coberto de poeira encostado em um barranco.
- Daqui a pouco ele vai acordar. Nossa cara eu tive um sonho, vou te contar, eu me atirava do 8º andar, a principio o céu estava azul com poucas nuvens, fui caindo e de repente notei diamantes, muitos diamantes ao meu redor, eles bruxuleavam uma luz que mudava de azul para verde e às vezes alternavam um roxo penetrante, cai, cai e cai o chão parecia nunca se aproximar,então olhei para trás o prédio já não era mais prédio agora era um homem marshmallow gigante que usava um chapeuzinho azul de marinheiro, ele balbucio alguma coisa próximo de ”Learn to Fly”, mas os diamantes se apagaram e tudo ficou escuro, um escuro denso e inquietante, mas por fim vi um letreiro brilhante nele estava escrito “Times Like These”, segui na estrada que levava ate ele. Quando cheguei nele acabou que eu me encontrava em um show do Foo Fighter.
- Foo Fighters... – Murmurou Poncho, surpreendendo todos por estar acordado.
- Também teve Foo Fighters no seu sonho? – Perguntou George.
-Teve. Mas eu tô falando daquilo ali. – Respondeu Poncho apontando para um pequeno show que acontecia ali perto.
Misteriosamente ninguém havia notado o show até que Poncho o houvesse mencionado, mas definitivamente estava acontecendo uma apresentação da banda ali perto. Porém o que o trio observava não era nada glamoroso como nas suas alucinações, a sua frente havia apenas um pequeno palco com poucos holofotes, e uma banda nada animada que parecia obrigada a tocar para um pequeno grupo de jovens com aparência um tanto quanto rebelde.
Tudo aquilo era tão deprimente, que Rurko se divertia com o Cogudex, apostando quantas vezes George conseguia reclamar da situação. Depois do Cogudex computar 72 suspiros, e a incrível marca de 100 “Eu deveria estar na casa da vovó”, o sistema de uma forma um tanto quanto afetada resolveu informar que eles estavam num planeta reformatório para jovens semi-rebeldes.
De fato, eles estavam no planeta Kosciuszko, que era um grande reformatório para jovens semi-rebeldes mandados de todas as partes da galáxia. O nome do planeta foi escolhido pelo primeiro grupo de pessoas enviado, ainda na época em que a Terra não estava completamente abandonada. O grupo era formado principalmente por fãs de bandas australianas semi-bem-sucedidas.
O trio começou a andar pelo meio da multidão (aquele negócio de ficar parado num barranco já estava deixando todo mundo de baixo astral), e algumas faces conhecidas começaram a surgir por ali.
Marcelo Preto, que odiosamente esperava pela apresentação de sua ex-banda, os Old Boys, que o havia expulsado alguns dias atrás. Os Old Boys iam lançar seu novo álbum com o single “Marcelo Doidão”, que continha o trecho:
Eu sou o Marcelo Preto,
Eu fumo um baseado,
Eu não tô nem aí
Hoje eu vou tocar pelado.
Eu sou o Marcelo Doidão!
YEAAAAH!”
A banda jurava que essa nova música não tinha nada a ver com o incidente que levou a expulsão de seu ex-vocalista. Mas qualquer um podia ver uma gravação do último show na internet, e dependendo da sua idade, poderia ver até o vídeo sem censura.
Perto do palco, revisando a setlist, estava John-Johns da banda os Caramelos de Godah, enquanto o baixista e vocalista, Mafu, e o baterista, Rin-Tin-Tin, faziam flexões pré-show e aqueciam a voz. Havia muito tempo que não os via tocar, mas ele tinha quase certeza que eles tocariam seu sucesso galáctico “Com Certeza”. Fato que gerou mais uma piada sem sucesso de Rurko, algo mais ou menos do tipo, “Com certeza eles vão tocar “Com certeza” então. Hahahaha...”. Como sempre, apenas Rurko caiu na gargalhada com seu senso de humor nada comum.
Poncho e Rurko ficaram conversando com um pianista primo de Poncho que estreia sua banda “Love Below”, parecia que o antigo nome, “Nós e a Turma”, não agradava a ninguém. Então Rurko percebeu que George havia sumido e foi procura-lo.
George havia se perdido no meio daquela multidão, e ele já começava a se deprimir com tantos rostos desconhecidos, nada daquilo parecia lhe agradar. Então o inesperado aconteceu.
Escuridão. Ponto de luz. Flor roxa. Galáxia. Estrelas. Sorriso.
Porém dessa vez não havia nenhum show, apenas uma garota. George ainda não sabia, mas aquela a sua frente era Alice, baterista da banda As Macorianas. Ainda um rosto desconhecido, mas dessa vez um que muito o agradava. O que a tornava tão singular? Seus cabelos pretos com pontas loiras? O chapéu de Pikachu que os cobria? Talvez fossem as bochechas? Sim, aquilo definitivamente era familiar, eram exatamente iguais as suas. Não importava, era uma garota singular e ele iria conhecê-la.
Respirou fundo. Deu um passo. “Comprimente ela, só isso.”. Outro passo. “Só tente não parecer idiota.”. Outro passo. “Tudo vai dar certo.” Mais um e... Rurko.
Quando menos esperava, Rurko surgiu gritando no meio da multidão.
- Onde você tava, cara? A gente tava te procurando por todo lado.
- Ah, eu tava por aí, procurando alguma coisa pra fazer.
- Então vamos encontrar o Poncho, temos que arranjar um lugar pra ficar.
George concordou com Rurko, mas ao sair, ele ainda olhou par trás só para constatar aquilo que imaginava, a garota não estava mais lá, apenas mais rostos desconhecidos e nada agradáveis para ele. Antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, Rurko o apressou e eles partiram atrás de Poncho.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Capítulo 4

A Valkyria estava parada em uma cratera de Titã. Poncho e George sincronizaram seus relógios prontos para iniciar o plano. Eles não sabiam exatamente para que isso, mas já que a coisa era pra valer...
Em suas mochilas havia todo tipo de coisa que compunha o inventário de soldados infiltrados durante a 2ª guerra mundial (pelo menos de acordo com jogos de estratégia de há muito tempo atrás): Maços de cigarro, corda, pás, alicate de arame, armadilha de urso, serra de laser versão mega-man, uniformes de cozinheiro e sonífero para cavalo.
O plano era encontrar um pedaço de cano de vácuo de transporte de lixo que estivesse desativado. Abrir esse cano com a serra de plástico. Seguir até a cozinha já dentro dos uniformes. Colocar o sonífero na comida. Despachar o Rurko adormecido em um cano de lixo para resgatá-lo depois já na cratera, após sair pela porta da frente com o desfarce de cozinheiros.
Os dois escalaram a borda da cratera em uma região onde a mineração de metano já fora abandonada. Os primeiros raios de sol já refletiam a imensidão dos anéis de saturno criando um jogo de luzes amarelas e brancas que bruxuleavam por uma reunião do Genesis. A atmosfera saturada de metano de Titã transformava tudo aquilo em uma experiência espectral tanto quando espiritual, e George e Poncho fizeram notas mentais de voltar ali em tempos mais calmos.
Tiraram as pás das mochilas e começaram a cavar até encontrar o cano. Para abri-lo usaram a serra de laser, (com belos e intrincados esquemas de espelhos e capacitores de fluxo que possibilitavam lasers a pilha, capazes de serrar árvores).
Após cortar um pedaço do cano e entortá-lo de modo que o lixo fosse desviado para a cratera, entraram nele rastejando e se desviando do lixo que já havia na cratera.
Dentro do cano, dois fachos de luz se encontram. George saca sua serra a laser e começa a choramingar enquanto Poncho, que estava atrás tenta voltar na malandragem. 
- E aí? - disse Rurko, meio sem jeito – O que você está fazendo aqui?
- O Poncho e eu viemos te buscar – George, guardando a serra a laser, aliviado.
- Poncho?
George olhou para trás e viu que seu amigo havia fugido.
- O Poncho é um frangão! - Rurko falou enquanto eles começavam a se arrastar de volta ao buraco aberto no cano.
Na borda da cratera não havia sinal de Poncho. Enquanto batiam a sujeira de seus trajes, George explicou o plano, terminado ao dizer:
- Era incrível, ao estilo commandos, mas você fugiu antes e estragou tudo.
Rurko respondeu com um sorriso melindroso e eles se dirigiram a nave.
Dentro dela encontraram Poncho largado em uma poltrona lendo uma hiperinteressante, sua revista favorita desde que era apenas super.
- E aí, galera? - disse Poncho num sobressalto
- Você fugiu – retrucou George, com um semblante de desgosto.
- Mas é a vida, cara... - Poncho, rapidamente mudando de assunto – e a sua fuga Rurko?
- Então...
Mas nesse momento soaram os alarmes da prisão e Rurko pulou na cadeira do piloto e ligou a nave para fugir. No impulso, George e Poncho foram arremessados ao fundo da nave, e nem perceberam o momento em que um míssil da polícia começou a se aproximar da nave um uma velocidade absurdamente apavorante.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Capítulo 3

George e Poncho estavam na parte da frente da Valkiria, desconsolados, enquanto as estrelas repousavam pouco visíveis na imensidão de preto e lilás onde a nave estava parada. Uma supernova havia explodido ali há algum tempo e a radiação resultante, embora não penetrasse na lataria da nave, a deixava invisível para os sensores das patrulhas da polícia. Um esconderijo ótimo porem sem nenhum sentido, já que Rurko havia sido preso e para as autoridades, estava tudo bem.
Poncho tentava ver a situação novamente e se perguntava como ajudar Rurko. A falta de solução aparente o levou ao que sempre fazia nessas situações, falar coisas óbvias:
-Ele está preso e nós estamos aqui, comendo danoninho. Nem carteira para pilotar essa nave nós temos. A essa altura ele já foi cooptado por uma gangue, estuprado, fez uma tatuagem e um novo corte de cabelo. - Poncho continuou nisso por algum tempo, até que George ligou a TV, pegando uma notícia pela metade.
...secção de curiosidades: Garoto é preso por não pagar a conta da lanchonete. O delito foi cometido num espaço porto da rota 3,14159265... 751058... . As autoridades o encontraram no banheiro, entalado na privada. No local, nosso VJ, Cachorrão.
É isso aí, macacada. O garoto ficou preso na privada, depois foi preso pela polícia. Parece que esse sujeito com cara de Barney testemunhou a parada toda. Segundo ele, foi algo transcendental, cerebral, emocional, etcetera e tal. O que, diretor? - Perguntou o VJ, enquanto apertava o ponto eletrônico no ouvido – Não! Eu larguei as drogas há muito tempo. Mas que merda. De volta ao estúdio, é com você, Coris Basoy.
O jovem foi levado para a lua prisional de Titã, na região das minas de metano.” - Nesse ponto, Poncho desliga a TV.
- Por que desligou? - Disse George tentando alcançar o fundo do pote de iogurte.
- Por que temos de resgatá-lo.
- Mas justo agora que vai passar Chaves?
- Ele está preso...
- Mas são reprises dos episódios novos do planeta Kepler.
- É... não é como se ele não fosse estar lá depois...
- Então liga, aí. - Disse George, antes de lamber a tampa do danoninho, deixando-o, por fim, largado em cima do painel da nave.Antes do prosseguimento da trama porem, um fato interessante: Foi constatado pelos sociólogos terrestres, logo após os comboios em fuga da terra se encontrarem com as outras civilizações humanoides da via láctea, que todas tinham seu próprios Chaves. Aparentemente, filmar o seriado Chaves é um passo fundamental em qualquer desenvolvimento, de qualquer cultura planetária. Ele se constitui na única constante cultural, pois é a única coisa que se repete em todos os planetas habitados. Muito se indagou sobre o assunto, mas poucas foram as conclusões, já que no fim, tudo o que se criou foram infinitas listas de discussão na internet, sobre qual o melhor Chaves já criado.
Alem disso, foi exibindo os diversos “Chaves” velhos como se fossem novos, para as diversas audiências, que a MTV se tornou a maior a maior emissora de TV da galáxia. Foi assim que desbancou a, hoje paupérrima CCTV de plêiades, cuja programação era baseada em novela, videocassetadas e o megasucesso, Siga Bem, Cosmonauta.
Depois de meia hora perdida, entre reprises de Chaves e vinhetas com planetas cercados de naves verdes que explodem em rosas e violetas multicoloridas, caindo suavemente sobre campos de grama cinzenta, onde texugos jogavam golfe formando enormes Ms, Ts e Vs, o sistema de bordo, Cogudex, grita assustado:
-Vocês sabem muito bem que tem de salvar o Rurko!
- Tudo bem, nós já temos um plano – Disse Poncho.
- Temos? - Perguntou George, com seu sorriso carismático.
-Vocês vão chamar o Bira? - Cogudex, ainda gritando, interrompendo Poncho, que ia começar a falar.
- Você sabe que o Bira está no nosso velho planeta. Provavelmente treinando alguma luta extremamente violenta – Disse Poncho pensativo.
- Ou esperando por aquela garota que disse: “Vou sair contigo, quando você for o último homem da terra!”. - George tinha testemunhado a cena e garantia que Bira, seu velho amigo da terra, tinha levado a coisa a serio.
Com risadinhas sarcásticas e piscando a tela nervosamente, o sistema de bordo direcionou a nave para Titã, onde sem que Poncho e George saibam, Rurko já armava seu plano para escapar.